

Do Café ao Aço:
A Forja de Volta Redonda e o Espelho do Brasil Industrial
Olhar para a trajetória de Volta Redonda é, em essência, observar a biografia da industrialização brasileira no século XX. Poucas cidades no país encapsulam com tanta precisão as mudanças políticas, sociais e econômicas do Brasil moderno quanto este município cravado no Vale do Paraíba. O que era, até a década de 1940, apenas um acidente geográfico, uma curva acentuada do Rio Paraíba do Sul cercada por latifúndios decadentes, tornou-se o palco da maior aposta de Getúlio Vargas.
Para compreender Volta Redonda, é preciso olhar para fora do Brasil. A cidade não nasceu apenas da necessidade de aço; ela nasceu da guerra.
Nos bastidores da Segunda Guerra Mundial, Vargas jogou uma partida diplomática perigosa e calculada entre a Alemanha Nazista e os Estados Unidos. O preço pelo alinhamento brasileiro aos Aliados foi cobrado em infraestrutura pesada. Os Acordos de Washington não garantiram apenas capital financeiro e tecnologia americana; eles selaram o nascimento da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
A escolha do local, no antigo 8º distrito de Barra Mansa, obedeceu a uma lógica logística militar e industrial implacável: água abundante para resfriar os altos-fornos, proximidade com os grandes centros consumidores (Rio e São Paulo) e acesso ao minério de ferro de Minas Gerais.
A "Cidade-Empresa" e a
Engenharia Social
A construção da usina, iniciada em 1941, desencadeou um fenômeno migratório sem precedentes. Milhares de trabalhadores, apelidados pejorativamente, e depois carinhosamente, de "arigós", chegaram de todos os cantos do país.
Mas a CSN não ergueu apenas uma fábrica; ela ergueu uma sociedade. Durante décadas, Volta Redonda operou sob o modelo clássico de Company Town (Cidade-Empresa). A estatal era onipresente: o operário morava na casa da CSN, o filho estudava na escola da CSN, a família era atendida no hospital da CSN.
Isso criou um tecido social singular. Havia um orgulho profundo em ser "csniano", mas também uma dependência umbilical do Estado. A cidade cresceu orbitando a usina, o que levou inevitavelmente à sua emancipação política em 1954, desmembrando-se de Barra Mansa.

1988: O Aço Manchado de Sangue
Se a fundação da cidade representa o apogeu do varguismo, o ano de 1988 representa a fratura exposta do regime militar e a tensão da redemocratização.
Volta Redonda, considerada Área de Segurança Nacional, viveu sob intervenção direta de Brasília por anos. Em novembro de 1988, uma greve legítima por melhores salários e condições de trabalho transformou-se em campo de batalha. A invasão da usina pelo Exército resultou na morte de três operários: William, Valmir e Barroso.
O episódio foi um divisor de águas. A cidade, que sempre fora símbolo do progresso, tornava-se símbolo da repressão trabalhista. O memorial projetado por Oscar Niemeyer, explodido misteriosamente logo após a inauguração e reerguido com suas feridas expostas, permanece hoje como um lembrete físico de que o aço de Volta Redonda também foi forjado com sacrifício humano.

O Choque da Privatização e o Novo Século
A década de 1990 trouxe o fim do paternalismo estatal. A privatização da CSN em 1993, durante o governo Itamar Franco, rompeu o cordão umbilical. Da noite para o dia, a cidade teve que aprender a andar sem a tutela da empresa que lhe deu a vida.
Foi um período de trauma econômico, demissões e incertezas, mas que forçou uma necessária reinvenção. Volta Redonda diversificou-se. Deixou de ser apenas um dormitório de operários para se tornar um polo regional de serviços, comércio e educação superior.
Hoje, ao caminhar por Volta Redonda, vê-se uma cidade que carrega as cicatrizes e as medalhas de sua história. A fumaça das chaminés ainda desenha o horizonte, lembrando que ali, naquela curva do rio, o Brasil decidiu deixar de ser agrário para se tornar industrial. A "Cidade do Aço" é, acima de tudo, um monumento vivo à resiliência do trabalhador brasileiro.




